Jogos 80'
Crônica

Vovó e o Guitar Hero
Uma crônica de um gamer e sua avó
Por Fernando Salvio em 15/12/2007



Hoje estava jogando um pouco de Guitar Hero e após incomodar meu avô com o som alto no meu quarto, fui jogar na sala.

Minha vó estava por lá e ficou assistindo. O mais interessante é que ela acha o máximo.

-Você faz certinho! Tava reparando seus dedos e os desenhinhos na tela, tava certinho!

Uma senhorinha de 81 anos, que já passou por um derrame, uma prótese em cada braço, olha o jogo como se fosse uma criança de 10 anos. E não é a primeira vez.

Além de ser uma fã do Mario Bros: -É aquele que corre, corre e nunca chega?

Dos tempos que eu e meu primo jogávamos Nintendo 64 na casa dela.

Lembro que ela gostou muito dos jogos do Eye Toy. Este que tem como garota propaganda, ou pelo menos garota das instruções, uma velhinha e seus amigos. Pra quem não sabe, quando se liga um Eye Toy pela primeira vez, toda a explicação de como funciona é demonstrada por uma simpática velhinha. Parece que o pessoal de marketing não estava errado dessa vez! :-)

O mais legal de tudo isso é eu explicando pra ela que ninguém quer mais pagar por música, toda a história do mp3, internet e como o Guitar Hero é visto pelas gravadoras e bandas como uma forma de vender a música.

Entre uma música e outra eu contava pra ela a história da banda, dizendo quem é o Carlos Santana e porque a música dele soa de forma diferente ou latina, mostrando o ano de lançamento da música e ela meio atrapalhada, tentava fazer as contas entre o ano de lançamento da música, a data de aniversário dela e o ano atual.

Claro que eu nem espero que ela entenda metade do meu palavreado já que mesmo que eu me esforce para simplificar, explicar e traduzir cada um dos detalhes para o paradigma dela, tenho certeza que muita coisa passa desapercebido. Mas em nenhum momento ela se mostra desinteressada ou perdida. A velhinha é bem lúcida e de vez em quando diz:

-Nossa como você aprende tudo isso?

E eu de forma singela tento apenas mostrar que a internet tem muita coisa, muita gente, muito conteúdo. E junto com isso já começo a explicar a diferença entre a TV, rádio e a possibilidade da internet de cada uma criar e disponibilizar qualquer conteúdo, desde livros até filmes. E num esforço de adaptação comparo tudo isso com a biblioteca de Alexandria, contando que aparentemente o conhecimento não está mais tão frágil como naqueles tempos, que qualquer um pode guardar sua própria Alexandria no seu próprio computador.

Ainda faço uma pequena mostra de projetos de clusters por internet e seus usos para busca de cura de doenças e como isso funciona, comparando um grande laboratório com muitos computadores, com os bilhões de computadores espalhados pelo mundo fazendo esse trabalho de forma voluntária. Não consigo imaginar se ela poderia vislumbrar bilhões de computadores, mas eu bem que tento.

Enquanto isso, meu avô que já não conseguia dormir, aparece para compor a platéia e ao observar, sem a boa vontade da minha avó, manda:

-Mas porque que você está apertando os botões aí, o som está saindo mesmo jeito.

E entre uma música e outra ou num grande esforço para falar durante o jogo, explico que estou apenas fazendo o som da guitarra, mas não sei se o carrancudo entende ou faz qualquer esforço para tal.

-Mas onde fica gravada essa música? Cade o disquinho?

Eu poderia ter simplificado, mas explico que não tem mais disco, que está numa caixinha (HardDisk) dentro da caixa maior (Playstation2) e que não preciso do disquinho para jogar, apenas baixei o jogo na internet e gravei direto na caixinha.

Silêncio. Aposto que baixar da internet não é algo que faça muito sentido para ele...

Mais algumas músicas e estava eu travei na fase em que o jogador faz um duelo com o Slash. Mesmo com muita torcida, não foi dessa vez. Tenho que treinar mais para passar dele no nível hard.

No final, fico impressionado por ver que algumas pessoas estão muito a frente de seu tempo ou que se adaptam e gostam de novidades. Da mesma forma que expliquei que as coisas funcionam muito mais rápido hoje do que antigamente, que uma idéia pode ser mostrada ao mundo de forma muito rápida. Diferentemente da época como a do Leonardo Da Vinci, que inventou muitas coisas, muitas a frente do seu tempo, da sua tecnologia e que ainda hoje estão sendo descobertas e difundidas.

Pena ela ter nascido tão antes dessa tecnologia toda e sorte eu poder ver o nascimento de tudo isso e tudo crescendo cada vez mais.

Quem dera poder apresentar o velho Isaac Asimov para minha vó, aposto que renderia um bom papo. :-)

Té!

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Fernando Rodrigues Salvio
fernando.salvio@gmail.com

PS.: Depois da novela, ainda com a torcida de cabeça branca feminina, consegui vencer o Slash. :-D

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